IBOVESPA—
USD/BRL—
EUR/BRL—
S&P 500—
BTC/BRL—
IBOVESPA—
USD/BRL—
EUR/BRL—
S&P 500—
BTC/BRL—
BR NEWS
Colunistas

Reconhecer a derrota também é estratégia

Em menos de uma semana, o próprio partido de Flávio Bolsonaro reconheceu a vitória de Lula. Não foi gesto de cortesia. Foi o cálculo que pode manter a direita competitiva até 2030.

Reconhecer a derrota também é estratégia

Na noite de 25 de outubro, poucas horas depois do fim da apuração, Flávio Bolsonaro anunciou que pediria a anulação da eleição. Dois dias depois, deixou o país com a família rumo aos Estados Unidos e divulgou uma carta em que se apresentava como presidente eleito, termo que depois trocou por "líder". Não apresentou prova de fraude. O presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Nunes Marques, ministro indicado ao Supremo pelo pai do candidato, afirmou que a eleição transcorreu "dentro da mais absoluta normalidade".

O que aconteceu em seguida diz mais sobre o futuro da direita do que a própria derrota. O PL reconheceu a vitória de Lula e declarou não ter provas de fraude. O líder da oposição no Senado, Rogério Marinho, repetiu a mesma posição. Valdemar Costa Neto criticou a carta e disse não saber da viagem. E Tarcísio de Freitas, reeleito em São Paulo, resumiu o sentimento do campo: "A eleição acabou e agora é preciso olhar para a frente". Em poucos dias, o candidato ficou mais isolado do que o resultado.

Isso não é virtude. É cálculo, e cálculo correto. Em 2022, o PL foi ao TSE contestar parte das urnas do segundo turno e acabou condenado por litigância de má-fé, com multa de R$ 22,9 milhões confirmada pelo plenário do tribunal. O partido aprendeu o preço de sustentar uma tese sem prova. Em 2026, levou menos de uma semana para fazer o caminho oposto.

Há uma razão ainda mais objetiva. O mesmo sistema de votação que deu a vitória a Lula elegeu a maior bancada do PL na Câmara e ampliou a presença do partido no Senado. Questionar a urna do segundo turno é questionar a urna que elegeu os próprios deputados e senadores. Nenhum partido sério desmonta a legitimidade do mandato que acabou de conquistar.

Reconhecer a derrota é estratégia porque preserva o ativo mais caro da política, que é a credibilidade. Perder por 3,57 pontos, com quase 60 milhões de votos, é capital político. Contestar sem prova troca esse capital por uma narrativa que só conversa com a base mais fiel e afasta justamente o eleitor que decide eleições apertadas. Esse eleitor não é militante. Ele votou em um lado em outubro e pode votar no outro em 2030, e dificilmente acompanha quem se recusa a aceitar o placar.

A história recente tem exemplos dos dois caminhos. Em 2018, Fernando Haddad perdeu, fez um discurso duro na noite da apuração e, no dia seguinte, desejou publicamente "sucesso" ao presidente eleito. Quatro anos depois, o campo dele voltou ao poder. Em 2022, o caminho foi o da contestação, e o custo veio em multa, em desgaste e em processos que ainda pesam sobre a direita. A diferença entre os dois desfechos não está na ideologia, mas na forma de perder.

Existe também uma razão de comunicação. Quando um líder reconhece a derrota, ele organiza a frustração da própria base: perdemos esta, aprendemos, voltamos. Quando contesta sem prova, transforma frustração em ressentimento, e ressentimento mobiliza por uma semana, mas não elege ninguém três anos depois. A base que hoje se sente frustrada é a mesma que o partido vai precisar convocar em 2028, nas eleições municipais, e em 2030.

A direita sai de 2026 com estrutura para disputar o país: a maior bancada da Câmara, governadores fortes e nomes com voto para 2030. Para chegar lá, vai precisar de líderes que saibam perder. Em política, a derrota não encerra uma trajetória. O que encerra é a forma de perder.