O debate que mostrou o que a política virou
Lula e Flávio fizeram um espetáculo para as torcidas, e o eleitor que ainda não decidiu saiu do debate com pouco material para comparar

O primeiro debate do segundo turno presidencial, exibido pela Band no domingo, deveria servir a um público específico: o eleitor que ainda não decidiu. É para ele que o formato existe. Quem já escolheu o lado assiste para torcer. Quem está em dúvida assiste para comparar. E o que esse eleitor encontrou foi pouco material para comparação.
Houve propostas? Poucas. Flávio Bolsonaro apresentou ideias para a segurança, como classificar facções como organizações narcoterroristas, e falou em um ministério para unificar programas sociais. Lula defendeu a coordenação federal da segurança, a reindustrialização e a ampliação de programas de saúde. Mas as propostas apareceram como intervalo entre os ataques e não como o centro do debate. O que dominou a noite foram filhos, sigilos bancários, banqueiros investigados, ironias de parte a parte. Os mediadores precisaram intervir mais de uma vez. Perguntas foram usadas como armadilhas, e respostas foram usadas para fugir das perguntas.
Nenhum dos dois inventou esse modelo. Ele é a consequência lógica de uma política que passou a ser medida pelo corte que viraliza na manhã seguinte. Cada frase é calculada para virar vídeo de 30 segundos, e o vídeo de 30 segundos não precisa convencer ninguém. Precisa apenas confirmar o que a própria torcida já pensava. O resultado é que os dois lados saem do estúdio declarando vitória, e as caixas de comentário confirmam isso para cada lado. O debate termina empatado em convicções e zerado em persuasão.
Não precisa ser assim, e o exemplo é recente e vem da mesma emissora. Em 9 de agosto, a Band recebeu Tarcísio de Freitas e Fernando Haddad no primeiro debate da eleição para o governo de São Paulo. Os dois eram os principais representantes estaduais de Flávio e de Lula e a polarização nacional estava inteira dentro do estúdio. Foi um debate duro. Houve cobranças, críticas aos governos de cada lado e acusações de que o adversário não dizia a verdade ao eleitor. Ainda assim, analistas de campos diferentes chegaram à mesma conclusão: foi um debate civilizado, sem ataques pessoais e sem baixaria.
E foi, sobretudo, um debate sobre o estado. Os dois discutiram a privatização da Sabesp e o saneamento, os investimentos em transporte sobre trilhos, a cracolândia, a segurança pública e as medidas para proteger exportadores paulistas do tarifaço. Discordaram em quase tudo, mas discordaram sobre propostas, números e resultados de gestão. Quem assistiu sem ter decidido o voto saiu sabendo o que cada um pretendia fazer com São Paulo. A divergência continuou firme, só que a serviço do eleitor, e não da torcida.
A diferença entre os dois debates não está nos candidatos nem nas ideologias. Está na pergunta que cada campanha faz antes de entrar no estúdio. Uma pergunta é "o que precisamos que o eleitor indeciso entenda hoje?". A outra é "qual frase vai render mais visualizações amanhã?". A primeira produz debate. A segunda produz conteúdo.
Faltam poucos dias para a eleição, e ainda há encontros pela frente. O eleitor que vai decidir esse segundo turno não está nas caixas de comentário. Está em casa, com o controle remoto na mão, esperando que alguém explique por que a vida dele vai ser melhor nos próximos quatro anos. Quem conseguir falar com ele, em vez de falar com a própria torcida, tem mais chance de sair do estúdio com algo que vale mais do que um corte: um voto que ainda não tinha.
