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Liderar pessoas já não basta

Quanto mais poder de execução existe no sistema, mais importantes ficam direção, prioridade, critério e clareza sobre quem decide o quê.

Liderar pessoas já não basta

Por muito tempo, quando um líder precisava aumentar a capacidade do time, tinha basicamente três caminhos: contratar mais gente, desenvolver quem já estava dentro ou reorganizar o trabalho. Agora existe um quarto elemento nessa equação.

Parte da capacidade de um time já não vem necessariamente de uma pessoa. Pode vir de uma automação, de um software, de um agente de inteligência artificial ou de uma combinação entre tudo isso. E acho que ainda estamos tratando essa mudança como uma discussão sobre ferramenta quando ela começa a ser, principalmente, uma discussão sobre gestão.

O trabalho está ficando híbrido antes de a liderança aprender a liderá-lo. E não estou falando simplesmente sobre substituir pessoas por máquinas. Essa é a versão mais fácil da conversa. O problema mais interessante começa quando um líder precisa decidir o que continua sendo responsabilidade humana, o que pode ser delegado à tecnologia, o que precisa continuar sendo aprendido mesmo que uma IA já consiga executar e quem responde pelo resultado quando o trabalho foi dividido entre gente e máquina.

Até pouco tempo atrás, quando um gestor dizia “preciso de mais capacidade”, a tradução quase automática era “preciso de mais gente”. Hoje, antes de abrir uma vaga, deveria existir uma pergunta anterior: que trabalho precisa ser feito e qual é a melhor forma de construir capacidade para executá-lo? Pode ser uma contratação, desenvolvimento, tecnologia, redistribuição ou até a eliminação de uma atividade que ninguém teve coragem de questionar antes.

Essa decisão não deveria chegar pronta para a área de Pessoas apenas executar. Ela pertence à liderança. E começa a mexer em praticamente tudo que aprendemos sobre gestão de pessoas.

Pense em desenvolvimento. Durante anos, boa parte da formação profissional aconteceu por meio das tarefas mais simples. O júnior pesquisava, consolidava informações, preparava uma primeira análise, montava o material e aprendia fazendo. Muitas dessas tarefas estão justamente entre as primeiras que a IA consegue acelerar.

Isso parece ótimo para produtividade, e pode ser. Mas alguém precisa responder onde essa pessoa vai aprender aquilo que antes aprendia durante a execução. Se eliminamos a tarefa sem reconstruir a experiência de aprendizagem, podemos ganhar eficiência hoje e descobrir daqui a alguns anos que também eliminamos parte do caminho que formava nossos seniores.

O mesmo acontece com performance. Se duas pessoas entregam o mesmo volume, mas uma sabe usar tecnologia para melhorar decisões, constrói capacidade no restante do time, entende contexto e percebe quando uma resposta aparentemente boa está errada, ainda faz sentido avaliá-las apenas pelo que produziram? Quanto mais barata fica parte da execução, mais valiosos ficam julgamento, contexto e responsabilidade.

E é justamente aí que liderança ganha peso, não perde. Um time com acesso a mais tecnologia não necessariamente se torna um time melhor. Pode apenas se tornar um time com capacidade muito maior de produzir na direção errada. Quanto mais poder de execução existe no sistema, mais importantes ficam direção, prioridade, critério e clareza sobre quem decide o quê.

Por isso tenho gostado de uma provocação: talvez estejamos caminhando de Recursos Humanos para algo mais próximo de Recursos Híbridos. Não estou propondo trocar o nome da área. O termo me interessa porque muda a unidade da discussão. Durante décadas, organizamos recrutamento, desenvolvimento, carreira, remuneração e desempenho partindo da premissa de que capacidade organizacional era, essencialmente, capacidade humana.

Essa premissa já começou a envelhecer. A capacidade de uma empresa passa a ser construída pela combinação entre pessoas, tecnologia, dados, automações e agentes, e alguém terá que desenhar como essas partes trabalham juntas. A área de Pessoas tem um papel enorme nessa transição, mas seria um erro transformar isso em mais uma responsabilidade que a liderança terceiriza para o RH.

É o gestor que terá que entender onde continua precisando de gente, reconstruir desenvolvimento quando determinadas tarefas desaparecerem, definir o que pode ser delegado sem perder responsabilidade e avaliar performance num trabalho cada vez mais mediado por tecnologia. Também será responsabilidade dele evitar que a busca por eficiência destrua capacidade futura.

Tudo isso continua sendo gestão de pessoas. Talvez, inclusive, seja a próxima versão dela.

Durante muito tempo, liderar significou conseguir resultado através de outras pessoas. Esse conceito não deixa de valer. Mas agora o líder também precisa administrar a capacidade criada ao redor dessas pessoas e decidir como ela deve ser usada. A tecnologia não torna gente menos importante; ela torna mais caro ter líderes que só sabem distribuir tarefas entre gente.

O gestor do futuro não vai liderar apenas quem está no time. Vai liderar tudo aquilo que esse time é capaz de fazer.