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Desta vez, a pesquisa errou a outra metade

Lula não venceu porque convenceu mais gente. Venceu porque levou mais gente às urnas. E a direita repetiu, no segundo turno, o erro que o PT tinha cometido no primeiro

Desta vez, a pesquisa errou a outra metade

No dia seguinte ao primeiro turno, escrevi que as pesquisas tinham errado metade do Brasil. Mediram com precisão o voto de Lula e deixaram de enxergar cerca de cinco pontos de Flávio Bolsonaro. A frase final daquele texto dizia que, no dia 25, perderia quem errasse a outra metade. Três semanas depois, o resultado confirmou a frase, com os papéis invertidos.

Os números do TSE contam a virada sem rodeio. Lula terminou com 51,79% dos votos válidos, 64,26 milhões de votos. Flávio ficou com 48,21%, 59,83 milhões. No primeiro turno, Flávio estava 2,2 milhões de votos à frente. Entre um turno e outro, Lula somou cerca de 10,4 milhões de votos, e Flávio, cerca de 3,7 milhões. Lula cresceu nas 27 unidades da Federação. E Minas Gerais, que desde 1989 escolhe o mesmo presidente que o país, virou de lado: Flávio tinha vencido o primeiro turno no estado por 4,91 pontos, e Lula venceu o segundo por 0,87.

O dado que explica a eleição, porém, não está no percentual de cada candidato. Está em quem saiu de casa para votar. A abstenção caiu de 21,08% para 19,22%, a maior queda entre turnos já registrada numa eleição presidencial. O comparecimento subiu em 4.858 dos 5.570 municípios. E o crescimento de Lula superou em cerca de 1 milhão de votos a soma de tudo o que os candidatos eliminados tinham recebido. Ele não venceu apenas herdando o eleitor da terceira via. Foi buscar quem tinha ficado em casa.

Isso não aconteceu por acaso. Depois do primeiro turno, a campanha do PT mudou de chave. Parou de gastar energia defendendo os feitos do governo e passou a falar dos riscos de uma vitória do adversário. Lula começou a gravar vídeos falando diretamente com o eleitor, a rede de apoiadores no WhatsApp passou a operar com tarefas diárias de distribuição de conteúdo, e a mobilização digital foi amarrada a atos de rua em vários estados. A campanha convocou até eleitores com mais de 70 anos, que não são obrigados a votar. No Nordeste, Lula chegou a 69,37% dos votos válidos e venceu nos nove estados. No dia da votação, Lula resumiu: "Eu, sinceramente, nunca vi nada igual ao que vi neste segundo turno".

Do outro lado, a direita cometeu exatamente o erro que o PT tinha cometido três semanas antes. Na véspera do primeiro turno, o campo de Lula olhava para pesquisas que o colocavam numericamente à frente em 11 de 16 levantamentos e boa parte desse campo tratava o resultado como encaminhado. Acordou atrás. No segundo turno, foi a vez da direita olhar para o espelho errado. Dez das doze pesquisas da véspera davam vantagem a Flávio, e os mercados de apostas chegaram a atribuir a ele 80% de chance de vitória. Analistas ouvidos pela imprensa resumiram o problema na mesma frase: a campanha saiu do primeiro turno com a sensação de que a eleição já estava ganha. Quem acha que já ganhou para de trabalhar o voto que ainda não tem.

O mapa mostra onde essa acomodação custou caro. Flávio cresceu em 20 unidades da Federação, quase sempre onde já era forte, como Goiás, o Paraná e Santa Catarina. Recuou em sete, e todas as sete ficam no Nordeste, justamente onde o adversário concentrou a mobilização. Somou-se a isso a dificuldade de explicar a proposta de cortes de gastos para quem depende de aposentadoria e de programa social. Cada vez que a campanha precisava garantir que nada seria cortado, a dúvida crescia em vez de diminuir.

Há uma ironia que vale para os dois lados. No primeiro turno, as pesquisas subestimaram Flávio. No segundo, as nove principais subestimaram Lula em 2,5 pontos, em média. O fio que liga os dois erros é o mesmo. Pesquisa mede intenção, não disposição de sair de casa. Quem mobiliza o eleitor relutante vence a pesquisa.

Nada disso apaga o tamanho da direita. A diferença final foi de 3,57 pontos. Flávio venceu em 14 unidades da Federação, e Lula em 13. O PL sai da eleição com a maior bancada da Câmara desde 1988, e o Sul e o Centro-Oeste continuam firmemente à direita. O país não mudou de opinião em três semanas. O que mudou foi quem decidiu aparecer.

A lição de 2026 é a mesma para quem ganhou e para quem perdeu, e cada lado a aprendeu num turno diferente. O voto que decide uma eleição apertada não é conquistado no debate nem na pesquisa. É buscado na casa de quem não pretendia sair. A pergunta para 2030 é qual dos dois lados vai se lembrar disso primeiro.