A pesquisa não errou o Brasil. Errou só metade dele
Lula teve, quase na vírgula, o voto que os institutos previram. Flávio Bolsonaro teve cinco pontos que quase ninguém mediu. O que essa disparidade diz sobre o país e sobre o dia 25 de outubro

Um erro com direção
Datafolha e PoderData davam a Lula 45% dos válidos, a Quaest 46%. Ele teve 45,16%. O voto do presidente foi medido praticamente na casa decimal. O desvio ficou do outro lado: Datafolha projetava Flávio em torno de 42%, e a CNT/MDA em 42,1%. Ele teve 47%. Uma diferença de cinco pontos concentrada em um único candidato não se explica pela margem de erro, que oscila para os dois lados.
Os dois institutos que colocavam Flávio à frente na véspera, Gerp (46%) e Palver (47%), eram justamente os que destoavam da média. O Palver, um painel online que não apresenta indecisos no quadro, foi tratado em relatórios de agregação como o ponto fora da curva da rodada e acertou o resultado de Flávio quase na casa decimal. O sinal também estava nos dados: na última semana, os seis institutos que fizeram duas medições registraram alta de Flávio, entre 1 e 4 pontos, com Lula estável.
As hipóteses para essa diferença ainda precisam ser testadas nos microdados: o eleitor que se declara indeciso e decide pela direita na urna, a migração de última hora da terceira via e a resistência de parte do eleitorado a responder entrevistas. O padrão, porém, não é novo. Em 2022, o voto da direita também apareceu maior nas urnas do que nas pesquisas de véspera.
O que a direita acertou
A direita acertou três coisas. A primeira foi o diagnóstico sobre o próprio eleitor, que ela dizia estar sub-representado nas pesquisas. Com uma ressalva: acertar desta vez não autoriza tratar toda pesquisa desfavorável como manipulação. Pesquisa imprecisa se corrige com método, e descartar o instrumento é pior do que calibrá-lo.
A segunda foi a concentração. Augusto Cury, Renan Santos, Ronaldo Caiado e Romeu Zema somavam cerca de 10% nas pesquisas e terminaram com 7,6% dos válidos somados. Zema, que aparecia com 1%, teve 0,27%. O eleitor de centro-direita antecipou o voto útil e chegou ao domingo concentrado em um único nome, algo decisivo numa eleição definida por menos de dois pontos.
A terceira foi a estrutura. O PL elegeu 121 deputados federais, a maior bancada de um partido desde 1988, e ampliou sua presença no Senado. Flávio venceu em 14 estados e no Distrito Federal, com 51,9% em São Paulo, 53% no Rio de Janeiro e 59,9% no Paraná. Lula segue forte no Nordeste, com 66,1% na Bahia e 63,5% em Pernambuco, mas perdeu cerca de 3,4 milhões de votos em relação a 2022, com queda justamente na região que sempre foi sua principal reserva.
O debate na esquerda
Na manhã seguinte, uma criadora de conteúdo de esquerda publicou no Instagram que "a esquerda precisa parar de explicar cada derrota pela ignorância de quem vota diferente". O post passou de 140 mil curtidas, mas os comentários mais curtidos responderam com o oposto, atribuindo o resultado a manipulação e "lavagem cerebral". Essa tensão é um desafio real para a campanha de Lula: quem explica 56 milhões de votos como manipulação tem mais dificuldade para reconquistar parte deles em três semanas. A própria direita já cometeu esse erro quando atribuiu derrotas às urnas.
O que observar até o dia 25
A vantagem de Flávio é pequena e o precedente recomenda cautela: em 2022, a direita também superou as pesquisas no primeiro turno e perdeu no segundo.
Há dois reservatórios de votos. O primeiro são os cerca de 9,5 milhões de votos válidos dos eliminados. Na Quaest de véspera, eleitores de Caiado preferiam Flávio a Lula por 43% a 19%; os de Renan, por 60% a 11%; os de Cury, por 34% a 23%. As amostras são pequenas e indicam direção, não número exato. Zema já declarou que estará contra o PT, Caiado aguarda o partido e Cury optou pelo silêncio. Renan não declarou apoio, embora tenha previsto vitória de Flávio. A mesma Quaest, porém, mostrava que entre um terço e dois quintos desses eleitores dizem não votar em nenhum dos dois.
O segundo é a abstenção, de 21%, mais de 33 milhões de eleitores, a maior taxa desde 1998. Em 2022, ela quase não mudou entre os turnos: caiu de 20,95% para 20,59%. Como a diferença entre os candidatos é de 2,2 milhões, mobilizar uma pequena parcela de ausentes pode decidir a eleição. Antes do primeiro turno, o agregado de pesquisas já mostrava Flávio numericamente à frente no confronto direto, por 45,7% a 44,9%, e indicava que ele era o único nome capaz de empatar com Lula. Diante do que ocorreu no domingo, as próximas pesquisas precisarão mostrar se os institutos ajustaram o método.Flávio chega ao segundo turno como favorito, por margem estreita. Seu principal risco é o triunfalismo e transformar a disputa em referendo sobre o sobrenome, terreno em que a rejeição pesa; o de Lula, insistir na tese da manipulação em vez de falar com quem deixou de votar nele. As pesquisas erraram metade do eleitorado no domingo. No dia 25, deve perder quem errar a outra metade.
Fonte de Dados: TSE (resultado oficial, 04 e 05/10/2026).
