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A liderança existe depois do “mas”

Existe um tipo de líder que todo mundo gosta. Ele entende, flexibiliza, dá mais uma chance, evita expor alguém e quase sempre encontra uma justificativa razoável para não transformar um problema em uma conversa difícil. Normalmente, chamamos esse líder de bonzinho. Eu tenho outra leitura. Muitas vezes, o líder bonzinho não está sendo bom.

A liderança existe depois do “mas”

Existe um tipo de líder que todo mundo gosta. Ele entende, flexibiliza, dá mais uma chance, evita expor alguém e quase sempre encontra uma justificativa razoável para não transformar um problema em uma conversa difícil.

Normalmente, chamamos esse líder de bonzinho.

Eu tenho outra leitura.

Muitas vezes, o líder bonzinho não está sendo bom. Está apenas escolhendo quem vai pagar pelo desconforto que ele não quis assumir.

Quando uma pessoa entrega menos do que deveria e o gestor evita a conversa, o trabalho não desaparece. Alguém termina. Quando um comportamento inadequado é tolerado porque “não vale comprar essa briga agora”, o incômodo continua circulando pelo time. Quando uma pessoa não deveria estar em determinada função, mas a liderança posterga a decisão, o time convive com as consequências.

O líder economizou desconforto para si. A empresa pagou a conta.

Talvez uma das distorções da liderança hoje seja essa: tratar a capacidade de evitar atrito como sinal de inteligência emocional. Nem sempre é. Às vezes, é apenas covardia social muito bem embalada.

E não estou defendendo o gestor grosseiro ou aquele que confunde exigência com humilhação. Esse é um problema diferente e, francamente, bem menos sofisticado. É fácil perceber um chefe que grita. Mais difícil é perceber quem prejudica o time enquanto continua sendo descrito como “uma pessoa maravilhosa”.

Ele quer preservar relações e mostrar que se importa. Tudo legítimo. O problema começa quando ser percebido como uma boa pessoa interfere na capacidade de tomar uma boa decisão.

Liderança tem uma parte pouco glamourosa: você vai decepcionar pessoas. Vai dizer não para alguém que tem um argumento razoável, cobrar alguém de quem gosta e reconhecer que uma pessoa excelente não serve mais para determinada função.

Esse talvez seja um dos maiores erros do líder bonzinho: ele olha demais para quem será afetado pela decisão e de menos para quem será afetado pela ausência dela.

Eu tenho um problema com uma frase comum nas empresas: “Mas ele é uma pessoa ótima.”

Quase sempre ela aparece antes de alguma coisa que não está funcionando. Ele é uma pessoa ótima, mas não entrega. Ela é ótima, mas não consegue liderar o time. Ele é ótimo, mas todo mundo precisa compensar o que ele deixa de fazer.

Ótimo. E agora?

Para mim, a liderança existe exatamente no espaço depois do “mas”.

O desafio nunca foi reconhecer as qualidades de alguém. Difícil é decidir quando uma qualidade humana legítima convive com um impacto profissional ruim. Quando você gosta da pessoa, conhece o contexto e, ainda assim, precisa admitir que alguma coisa não pode continuar como está.

É aí que cultura deixa de ser discurso.

Se uma empresa diz que valoriza performance, mas preserva indefinidamente quem não performa, já fez uma escolha cultural. Se diz valorizar colaboração, mas tolera alguém que destrói a dinâmica do time porque tecnicamente é muito bom, também. Se sobrecarrega quem entrega porque é mais fácil do que cobrar quem não entrega, fez outra.

A cultura real se forma nesses acordos: muito menos no que a liderança anuncia e muito mais no que aceita para não precisar se indispor.

E existe um efeito colateral perverso: normalmente, quem entende primeiro essa lógica são os melhores profissionais. Eles percebem que cumprir o combinado significa receber mais responsabilidade, que quem reclama o suficiente consegue exceções e que determinados comportamentos nunca têm consequência.

É aí que a empresa começa a ensinar coisas que jamais colocaria em um slide de valores: entregue mais e ganhe mais trabalho; reclame bastante e talvez consiga uma exceção; seja difícil de confrontar e aumente suas chances de não ser confrontado.

Nenhuma liderança escolhe escrever essas regras. Mas pode ensiná-las todos os dias.

Por isso, acho pobre discutir liderança usando apenas a régua do “duro” ou “bonzinho”. Quero saber se esse líder consegue bancar o custo das próprias decisões. Se consegue escutar uma história difícil e ainda assim decidir. Se consegue gostar de alguém e reconhecer que aquela pessoa não deveria continuar naquela cadeira.

Porque liderar não é escolher entre empatia e critério. É sustentar os dois quando seria muito mais confortável abrir mão de um deles.

E talvez essa seja a parte que mais incomode: o líder bonzinho costuma acreditar que, ao não agir, preservou alguém. Na prática, ele apenas escolheu outras pessoas para absorver a consequência.

E não existe nada particularmente bondoso nisso.